Há uma frase atribuída ao economista britânico Charles Goodhart que deveria estar pregada na parede de toda coordenação que decide trabalhar com metas: "quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida." Parece um trava-língua, mas descreve um dos fenômenos mais destrutivos da gestão — e a educação está cheia de exemplos.
Pense numa instituição que decide melhorar a leitura dos alunos e escolhe, como indicador, o número de livros lidos por turma. A intenção é boa. Mas assim que esse número vira meta cobrada, algo previsível acontece: professores passam a incentivar livros curtos e fáceis, alunos "leem" sem compreender só para marcar na lista, e a estatística de livros lidos sobe lindamente enquanto a leitura de verdade — a que forma leitores — não melhora em nada. O número subiu. O objetivo foi traído.
Isso é a Lei de Goodhart em ação, e é a razão pela qual tantas iniciativas de gestão por metas na educação produzem números bonitos e resultados vazios. Antes de adotar qualquer sistema de metas, é preciso entender essa armadilha — porque ela é fácil de cair e difícil de sair.
O que são OKRs
OKR é a sigla, em inglês, para "Objetivos e Resultados-Chave". É um método de definir metas popularizado por empresas de tecnologia, mas cuja lógica serve bem a qualquer organização — inclusive uma escola. A estrutura tem duas partes:
- O Objetivo é uma frase qualitativa, inspiradora, que diz aonde se quer chegar. Exemplo: "Tornar a leitura uma experiência prazerosa para os alunos do fundamental."
- Os Resultados-Chave são as medidas concretas que dizem se você está chegando lá. São eles que mostram progresso.
A ideia é boa. O objetivo dá direção e sentido; os resultados-chave dão como saber se você avança. O problema é que os resultados-chave são números — e todo número está sujeito à Lei de Goodhart.
A defesa: o contrapeso
Existe uma técnica simples e poderosa para proteger uma meta da distorção: emparelhar todo indicador de quantidade com um indicador de qualidade que o equilibre. É o que se pode chamar de resultado-chave de contrapeso.
Volte ao exemplo da leitura. Se o resultado-chave é "número de livros lidos por turma", ele precisa de um contrapeso que meça se a leitura foi real. Pode ser uma roda de conversa em que os alunos comentam o que leram, uma produção escrita sobre o livro, uma medida de compreensão. O contrapeso torna a trapaça inútil: não adianta inflar o número de livros se o indicador de compreensão não acompanha.
Todo indicador de quantidade que anda sozinho será, mais cedo ou mais tarde, manipulado — não por má-fé, mas pela pressão natural de bater a meta. O contrapeso de qualidade é o que impede que o número se descole do que ele deveria representar.
Esse princípio — nunca deixar um número de quantidade sem um par de qualidade — é talvez a proteção mais prática que existe contra a Lei de Goodhart. E é especialmente vital na educação, onde quase tudo o que importa de verdade (aprender, formar-se leitor, desenvolver autonomia) é difícil de medir, enquanto quase tudo o que é fácil de medir (número de exercícios, presença, notas em prova) é uma sombra imperfeita do que realmente importa.
Como desenhar um bom OKR na escola
Reunindo o que vimos, um OKR bem construído numa instituição de ensino segue algumas regras:
O objetivo fala de aprendizagem ou de pessoas, não de atividade. "Aumentar em 20% o número de reuniões" é um objetivo terrível — mede movimento, não resultado. "Melhorar o acompanhamento dos alunos em risco" é um objetivo que vale a pena.
Cada resultado-chave de quantidade tem seu contrapeso de qualidade. Sem exceção. É a regra que protege todo o resto.
Os resultados-chave medem o efeito, não o esforço. "Realizar 10 formações" mede esforço. "Reduzir a evasão em X pontos" mede efeito. O esforço é meio; o efeito é fim.
São poucos. Uma escola que persegue quinze metas ao mesmo tempo não persegue nenhuma. Dois ou três objetivos por ciclo, com dois ou três resultados-chave cada, já é ambicioso.
O papel da liderança
Há um último ingrediente sem o qual nenhum sistema de metas sobrevive: a forma como a liderança reage quando uma meta não é batida. Se o não-cumprimento vira caça ao culpado, a equipe aprende rápido a maquiar números — e a Lei de Goodhart vence. Se o não-cumprimento vira pergunta honesta ("o que esse resultado nos ensina?"), os números continuam confiáveis, porque ninguém precisa mentir para se proteger.
Metas, no fim, são uma ferramenta de conversa, não de cobrança. Servem para alinhar a equipe em torno do que importa e para perceber cedo quando a rota precisa mudar. Uma coordenação que usa OKRs assim — com contrapesos, com foco no efeito, e sem transformar meta em tribunal — colhe o melhor do método sem cair na armadilha que estraga a maioria das tentativas.
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Pesquisador em gestão escolar e metodologias ágeis, com pós-graduação em Gestão de Projetos pela PUC-RS. Autor do livro Escola Ágil e criador do Cursori.